Mudar, sair de um ambiente cuja dinâmica conhecemos profundamente, é quase sempre uma experiência traumática. Ao morar em outro país, como a Itália, a capacidade individual de adaptação a novas experiências é determinante para a intensidade do choque cultural ao morar na Itália, assim como para a duração de seus efeitos.
Todos, sem exceção, estão sujeitos ao choque cultural. Mesmo o comunicador intercultural mais preparado, que conhece teoricamente as causas e consequências da mudança de ambiente, vivencia o desconforto de não saber como agir em determinadas situações. Isso acontece porque o choque cultural não é apenas racional. Como explica a professora Elisabetta Pavan, da Universidade de Pádua, ele atinge “la pancia”, ou seja, é visceral.
O conflito entre razão e emoção no choque cultural
Quando afirmamos que somos tolerantes e abertos a diferentes culturas, expressamos um desejo racional. No entanto, ao nos depararmos com rituais ou costumes que entram em conflito com nossos valores, essa convicção pode ruir rapidamente. Nesse momento, inicia-se um debate interno entre “la testa” (a razão) e “la pancia” (a emoção), em que tentamos racionalizar aquilo que, instintivamente, nos parece errado ou inadequado.
O choque cultural ocorre sempre que saímos do nosso ambiente cultural: ao mudar de emprego, de estado civil, de cidade, de país ou de língua. Um exemplo clássico está no casamento, quando conflitos surgem por pequenas diferenças do cotidiano – como decidir se no prato se coloca primeiro o arroz ou o feijão. São detalhes aparentemente insignificantes, mas que despertam desconforto emocional profundo.
Cultura como algo invisível
Cada pessoa é como um peixe imerso na água: a água representa a cultura. Vivemos nela sem percebê-la. Só quando saímos desse ambiente é que entendemos que aquilo que considerávamos “natural” é, na verdade, cultural.
Mesmo dentro do Brasil, ao entrar em contato com pessoas de outras regiões, percebemos diferenças na pronúncia, na alimentação, na relação com o tempo, com a natureza e com os animais. Ao morar na Itália, esse processo se intensifica e se torna mais evidente.
O objetivo de um curso de língua, como o da ITALICA, é justamente ajudar o aluno a sair desse estado de cegueira cultural e compreender que língua e cultura são escolhas feitas por uma comunidade para resolver problemas da vida cotidiana.
Dormir é natural, mas dormir em uma cama, em uma rede ou em um futon é uma escolha cultural. Comer é natural, mas decidir o que se come, quando e como preparar os alimentos é cultural.
Por que o choque cultural ao morar na Itália surpreende tanto brasileiros?
Muitos brasileiros acreditam que não enfrentarão grandes dificuldades culturais na Itália. Afinal, consomem produtos italianos, cantam músicas em italiano, estudam a língua e, muitas vezes, possuem ascendência italiana. No entanto, o choque cultural ao morar na Itália surge justamente quando percebemos que conhecer uma cultura à distância é muito diferente de vivê-la no dia a dia.
Descobrir que em algumas regiões da Itália se consome carne de cavalo, caramujos ou pratos típicos como o panino con la milza, na Sicília, pode causar estranhamento. O mesmo acontece ao utilizar banheiros com instalações diferentes, como la turca, presente em alguns espaços públicos italianos.
Esses exemplos concretos ajudam a ilustrar os sentimentos despertados “nella pancia” pelo choque cultural.
O choque cultural como processo
O choque cultural não é apenas um sentimento momentâneo de estranhamento. Ele é um processo estudado pela antropologia. O termo foi cunhado por Cora DuBois, em 1951, e aprofundado por Kalervo Oberg, em 1954, que descreveu o choque cultural como uma “doença laboral”, com fases bem definidas.
Ao chegar à Itália, vive-se a chamada fase da “lua de mel”, marcada por entusiasmo e expectativa positiva. Com o tempo, surgem frustrações, dúvidas e questionamentos como: “por que tomei essa decisão?”.
As dificuldades burocráticas, a barreira linguística, a relação com repartições públicas, o humor italiano, a pontualidade e até a saudade da comida brasileira são gatilhos frequentes do choque cultural ao morar na Itália.
Frases como “se eu estivesse no Brasil isso não aconteceria” ou “ma chi me l’ha fatto fare?” tornam-se comuns nesse período.
Sintomas e superação
Os sintomas incluem saudade, solidão, tédio, distúrbios do sono, alimentação compulsiva e até hostilidade em relação à cultura local. Superada essa fase, inicia-se o processo de aceitação e integração, no qual se reconhecem os valores da nova cultura e se ressignifica a experiência.
O choque cultural não é negativo. Ele é inevitável e, quando enfrentado com maturidade, promove crescimento pessoal. A chave está no autoconhecimento, na abertura ao outro e na disposição para aprender.
Uma dica prática para quem vai morar na Itália
Participar da vida comunitária é uma das formas mais eficazes de superar o choque cultural ao morar na Itália. Corais, grupos esportivos, associações culturais, atividades voluntárias e iniciativas locais ajudam a criar vínculos, reduzir a solidão e compreender melhor a cultura italiana.
Estar em um país estrangeiro é como estar na casa de outra família. É preciso observar, respeitar e, aos poucos, integrar-se, sem abrir mão da própria identidade.

Professora
Ítalo-brasileira, filha de italianos, a Profa. Paola Baccin cresceu entre o Brasil e a Itália, conhecendo bem as duas línguas e culturas. Mestre em Língua e Cultura Italiana, Doutora em Filologia em Língua Portuguesa, ambas pela USP, e livre-docente na Universidade Ca’ Foscaria de Venezia. Foi professora dos cursos de graduação e pós-graduação de Italiano na USP. Atualmente mora em Treviso, na Itália.


