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O Renascimento italiano definiu padrões estéticos e técnicos que ecoaram por séculos, até os dias de hoje, e a arte contemporânea italiana desafia esses paradigmas, redefinindo constantemente as fronteiras da expressão artística. Hoje poderemos explorar um pouco desse mundo tão cheio de significados. E quando falamos de arte, neste caso, não nos limitaremos a falar apenas da arte da pintura. Veremos como a interação entre a arte contemporânea italiana e a tradição clássica do Renascimento revela um diálogo fascinante que ultrapassa as fronteiras da Itália, e também os limites do estilo e das épocas.

A arte moderna contemporânea

É interessante começarmos pensando que a ideia do termo “arte contemporânea” é absolutamente relativa. Imagine quem pôde andar pelas ruas de Firenze e avistar Michelangelo atravessando a rua. Essa pessoa que pôde viver ao mesmo tempo que os grandes pintores renascentistas não olhava para aquelas artes como artes necessariamente “clássicas” ou “renascentistas”, eram artes de seu próprio tempo, ou poderíamos dizer “artes contemporâneas“. Os mestres se tornam inquestionavelmente clássicos conforme o tempo passa e as gerações seguintes olham e revisitam as obras com o conhecimento de um outro tempo, futuro.

Albero porta cedro
“Albero porta cedro”, de Giuseppe Penone, 2012

Nesse sentido, é muito importante compreendermos que as influências de cada período só são entendidas e medidas de acordo com a durabilidade da presença de determinadas criações. Por outro lado, o mundo moderno, globalizado, apresentou uma nova possibilidade de disseminação internacional: as artes hoje viajam o mundo numa velocidade impensável no tempo do Renascimento. O que é produzido hoje na Itália já pode ser visto em qualquer parte do mundo em questão de minutos, e assim as influências e as inspirações também ganharam novo poder e mais intensidade.

Influências duradouras

A rica tradição artística da Itália não se limita aos mestres renascentistas, mas continua a prosperar no cenário contemporâneo, contribuindo de maneiras inovadoras e emocionantes para a cena global da arte. Neste contexto, exploraremos a influência da arte contemporânea italiana, destacando três artistas que desempenham papéis cruciais na moldagem dessa narrativa contemporânea.

Maurizio Cattelan

A influência do Renascimento é evidente em muitos artistas contemporâneos italianos, que, embora estejam conscientes da rica herança artística do passado, optam por subverter e reinterpretar essas tradições. 

Um dos artistas que se destacam na vanguarda da cena artística italiana é Maurizio Cattelan, nascido em 1960, em Pádua. Ele se destaca por criar esculturas e espaços, gerando uma ideia de cenário. Assim como a pintura, a arte de Maurizio Cattelan permite uma avaliação da cena e dos sentidos que se complementam quando observamos cada elemento e analisamos a maneira como eles criam uma história.

Essas criações são provocativas e muitas vezes satíricas, assim Cattelan desafia as convenções artísticas tradicionais, provocando há décadas uma reflexão crítica sobre temas sociais e religiosos, lembrando-nos da habilidade renascentista de questionar e desafiar as normas estabelecidas.

Seu trabalho transcende as fronteiras da escultura e da performance, oferecendo uma crítica afiada à sociedade contemporânea. Uma de suas obras mais emblemáticas, “La Nona Ora” (A Nona Hora), apresenta uma escultura de cera do Papa João Paulo II atingido por um meteorito; estão aí temas de poder, religião e mortalidade de maneira provocativa e única. 

La Nona Ora
“La Nona Ora,” arte que imagina o Papa João Paulo II atingido por um meteorito, é parte da exposição “Maurizio Cattelan: Be Right Back

Essa capacidade de Cattelan de criar obras que provocam reflexões profundas, enquanto desafiam as expectativas estéticas, não é a única razão de ele estar no epicentro da influência artística italiana. Outro bom exemplo de sua arte demonstra sua sensibilidade para questões do cotidiano. É uma das figuras de sua exposição chamada Breath Ghosts Blind: uma escultura em mármore Carrara que representa um homem e um cachorro, deitados um de frente para o outro. O espaço em torno não recebeu decorações, foi deixado completamente escuro, com uma única luz que ilumina as duas figuras. Podemos ver assim, por exemplo, a intimidade e a união e chegar a uma sensação de que a existência de uma é essencial para a existência da outra.

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Respiração de Maurizio Cattelan
Intitulada “Respiração”, é parte da exposição “Breath Ghosts Blind”

Outro nome que destacamos é Francesco Clemente, nascido em 1952, em Nápoles. Com sua fusão única de estilos, dialoga diretamente com o ecletismo renascentista, que também combinava influências diversas. 

Sua criação artística é uma mescla ousada que reflete uma exploração da identidade, da espiritualidade e das culturas, no plural mesmo, porque Francesco Clemente desafia categorizações convencionais, fundindo elementos do Oriente e do Ocidente. Suas obras são figurativas e simbólicas e revelam uma visão singular que transcende as fronteiras culturais, destacando-se como uma expressão inovadora na cena artística global, não apenas na Itália.

Francesco Clemente
Arte contemporânea italianaFrancesco Clemente Palimpsesto
Retrato de Francesco Clemente Palimpsesto
Exposição “Francesco Clemente: Palimpsesto”

Para finalizar nossa seleção, escolhemos Giuseppe Penone, um nome de grande influência. Ao esculpir árvores para revelar camadas internas, ele evoca a ênfase renascentista na observação detalhada da natureza. Ele nasceu em Garessio, em 1947 e vive em Turim, na Itália. É um escultor de renome internacional, conhecido por suas esculturas especialmente originais: são feitas em grande escala, com árvores, e revelam muito de um pensamento crítico sobre a ligação entre o homem e o mundo natural, dialogando bastante com os movimentos que buscam chamar atenção para as consequências das mudanças climáticas.

Giuseppe Penone

Seus primeiros trabalhos são frequentemente associados ao movimento “Arte povera”, que data da segunda metade dos anos 1960, quando dava-se ênfase à ideia de um trabalho artístico cujo processo poderia ganhar muito com o uso de materiais e elementos não convencionais no campo da arte. Em 2014, Penone recebeu o prestigioso prêmio Praemium Imperiale. É possível conhecer de perto a obra de Penone aqui no Brasil, em Inhotim, Minas Gerais.

Giuseppe Penone trabalhando em escultura
Giuseppe Penone trabalhando

Em obras como “Albero” (Árvore), ele esculpe árvores para revelar os anéis de crescimento internos, enfatizando a conexão intrínseca entre a natureza e a experiência humana. Sua arte traz uma perspectiva única para a cena artística contemporânea, desafiando os espectadores a reconsiderar sua relação com o mundo natural em um contexto cada vez mais tecnológico.

Escultura de Penone
contemporânea italiana - Escultura de Giuseppe Penone
Giuseppe Penone com escultura
Escultura de Giuseppe Penone

Podemos começar a ver como a arte contemporânea italiana não é uma ruptura, mas uma conversa dinâmica com o Renascimento, demonstrando que, mesmo em meio à inovação e experimentação, a influência duradoura da tradição clássica continua a inspirar e moldar a expressão artística contemporânea.

Em conjunto, Cattelan, Clemente e Penone exemplificam a diversidade e a profundidade da arte contemporânea italiana. Suas obras desafiam as tradições, exploram novas fronteiras conceituais e, ao fazê-lo, enriquecem a paisagem artística global. Ao olharmos para além dos estereótipos e clichês associados à arte italiana, encontramos uma narrativa artística vibrante e em constante evolução, que continua a moldar e inspirar o cenário artístico contemporâneo em todo o mundo.

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